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Hashstética e (in)visibilidade

Ou como a luta anticapacitista ganhou força nas redes sociais em meio à pandemia


Por Acauã Pozino*

Durante a última semana, começou-se a levantar no Twitter um questionamento muito importante: quantas pessoas com deficiência possuem o selo azul de verificação? Esse selo, originalmente pensado para atestar a autenticidade de um perfil que pudesse ser um potencial alvo de imitações e fake news, adquiriu também um valor simbólico e uma importância para o algoritmo da rede, dando a entender que o perfil em questão teria conteúdo de interesse público ou relevante. Mas essa verificação é outorgada por uma equipe do próprio Twitter, o que já nos diz de imediato que a distribuição não se dá de maneira tão puramente técnica.


Em primeiro lugar é necessário frisar que a tecnicidade imparcial é uma falácia, um conto liberal que historicamente embasou decisões estatais, postulados científicos e premissas filosóficas que possuíam nitidamente um pano de fundo ideológico burguês – com toda a carga de distintas opressões que isso implica. Isso posto, é preciso delimitar o pano de fundo ideológico do Twitter: uma empresa estadunidense, que vem atuando junto ao imperialismo principalmente desde o começo da gestão Trump, conhecida por não tomar atitudes contundentes contra neonazistas e similares apesar de inúmeras denúncias de usuários e que, não obstante, não hesita antes de suspender as contas de vozes proeminentes que questionem a política estadunidense ou que se manifestem de forma incisiva contra ações racistas, misóginas etc. quando estas vêm de figuras estimadas ao grande capital. Esta empresa decide quem recebe os selos de verificação e, por mais que seus trabalhadores não devam, a priori, ser responsabilizados pelas posturas dos acionistas da empresa, tampouco estão livres seja da ideologia estruturalmente preconceituosa do capitalismo, seja da ameaça do desemprego caso contrariem as políticas da empresa.


É importante destacar que a importância desses reconhecimentos se dá não por qualquer tipo de submissão ou reconhecimento do Twitter como autoridade moral, mas sim pelo fato de o objetivo da militância ser o de alcançar o máximo de pessoas possível, inclusive aquelas que, devido ao silenciamento sistêmico dos PcDs, estão totalmente alheios à pauta anticapacitista. E, especialmente em temos de isolamento social, essas pessoas não estão em qualquer rede engajada que possa ser popular entre aqueles que já estão na luta, mas sim nas grandes plataformas que detém ainda, infelizmente, a hegemonia da comunicação e onde, de um ou outro modo, precisamos atuar até que construamos uma alternativa viável.


É nesse cenário que começam a surgir hashtags pressionando pela verificação dos perfis de militantes antirracistas, antifascistas, antiLGBTQfóbicos etc., simulando no ambiente virtual a pressão massiva que se costuma causar nas ruas com as grandes manifestações populares a fim de coagir as instituições, nesse caso a empresa, a tomar determinadas atitudes, sob pena de sofrerem mais e mais pressão, perdendo consequentemente prestígio e, por conseguinte, lucro. O primeiro desses movimentos foi pela verificação de pessoas LGBTQs+ que já gozavam de amplo prestígio popular na rede, com a #VerificaLGBT. Esse movimento levou a outro, que pedia a verificação de militantes antirracistas, desta vez com contas mais específicas. E, na quinta-feira 02/07, deu-se o início de um movimento pela verificação de pessoas com deficiência (#VerificaPcD).


Até o momento da publicação deste texto, já eram 19 mil tuítes usando a hashtag #VerificaPcD

Alguns fenômenos se fazem palpáveis à luz desses acontecimentos. O primeiro deles é o caráter que têm as hashtags de se configurarem como uma espécie de produção textual coletiva, principalmente quando falamos de hashtags com finalidades específicas como as que citei. Há um núcleo narrativo, ou uma tese comum – a reivindicação, aqui, da verificação de perfis de PcDs – em torno da qual se entrelaçam inúmeras narrativas vindas das mais diversas cenas discursivas. Essas múltiplas narrativas formam um discurso que é polifônico pela diversidade de formas, mas que está completamente interconectado pelo sentido de seu conteúdo. Inegável também o caráter de classe de todos esses exemplos, já que se tratam de reivindicações de setores que compõem a classe trabalhadora em contraposição à vontade reacionária da burguesia.


Outro fator, não tão positivo, é que, no caso específico da #VerificaPcD, também fica clara a reticência dos movimentos sociais de maneira geral quanto ao debate da deficiência. Desde essa primeira mobilização, a hashtag está sendo impulsionada por nós PcDs e por pessoas sem deficiência que já estavam envolvidas na causa. Muito poucas personalidades com proeminência virtual envolvidas nas diversas lutas emancipatórias – nas quais muitos PcDs também estão envolvidos – se engajaram na reivindicação do reconhecimento do conteúdo anticapacitista.


Há duas razões que considero basilares desse comportamento. A primeira é a ideologia dominante, que nos nega o lugar de pessoa. Nesse instante pode levantar-se em protesto toda a bancada de esquerda, em todas as suas correntes teórico-metodológicas, mas a realidade não me deixa mentir. Até porque, convenhamos: nenhum de nós, desde os anarquistas mais apaixonados até os ideólogos da transformação quântica, foi criado fora desse sistema ideológico. A tal desconstrução, a busca por um convívio social mais justo, é uma luta travada dia após dia, na maior parte do tempo contra nós mesmos. E a influência desse sistema ideológico fica clara na reticência com que as reivindicações da luta anticapacitista são tratadas, quer por militantes de base, quer por dirigentes de organizações, quer por parlamentares, quer por governantes.


A segunda razão está, também, relacionada com o sistema ideológico, mas tem estreita ligação com o campo dos valores e com o campo da estética. Gostaria aqui de, guardadas as devidas proporções, traçar um paralelo com a luta do movimento LGBT, deixando claro desde já meu apoio irrestrito a suas reivindicações. A luta LGBT possui, historicamente, um apelo estético. Isso se deve a uma série de fatores, entre eles a quantidade de artistas integrantes da comunidade, à profusão de questionamentos quanto a padrões estéticos binaristas, bem como da indústria cultural que se empenha, há décadas, em esvaziar as reivindicações tentando torná-las algo como uma espécie de cultura hippie. A própria bandeira do arco-íris possui um fortíssimo apelo estético.


Por outro lado, a luta anticapacitista não goza do mesmo apelo. Poderiam ser listados vários motivos, mas o principal seria o fato de que, desde o princípio, a luta anticapacitista se propõe a desafiar e refutar o padrão de normalidade que é imposto sobre os corpos. Enquanto a luta LGBT versa, principalmente, sobre a forma de lidar com os próprios corpos, seja no campo da sexualidade ou do gênero, a luta anticapacitista busca conferir o mesmo grau de legitimidade a corpos cuja própria configuração anatômica destoa do que é instituído como “normal” e, portanto, não tem lugar dentro da estética burguesa, idealizada para corpos “produtivos”. Num mundo absolutamente visuocentrado, a presença ou não de apelo estético faz toda diferença para o nível de engajamento de um movimento, de uma marca ou de uma personalidade.


Logicamente que a separação entre lutas só existe no campo da análise. Existem pessoas com deficiência LGBT, o que obriga esses dois movimentos a estarem em diálogo. Mas não estão. Nunca, até o momento em que escrevo estas linhas, estiveram de fato. E, enquanto tivermos que lutar dias e dias a fio por um selo azul ao lado de nossos nomes de perfil, estará claro que permanece um outro selo: o da invisibilidade, o da não-pessoalidade. O do que não é estético.


Mas nossa produção coletiva continuará. Nossa estética será construída pela força de nossa mobilização. E, em algum momento, seremos impossíveis de ignorar, e a redação que escrevemos agora, a centenas de mãos, em torno da #VerificaPcD será página de uma história com o nosso selo de verificação.



*Acauã Pozino é articulista do site Língua Livre, podcaster na Central PCD, ex-aluno do Colégio Pedro II e estudante de Letras: Português-Espanhol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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