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Os tontos e os filhos da puta

Por Liliane Machado


No grupo de whatsapp do meu prédio na Freguesia, onde a classe média depauperada se pensa rica, os frequentes posts sobre violência urbana motivam sempre reações fascistas. "Mataram o ladrão", diz um. "Coitado", responde ironicamente o outro, para em seguida postar a seguinte figurinha:





Essa postura não é muito diferente da dos 62% da população que continuam avaliando o governo do Bozo como razoável, bom ou ótimo. Esse grupo se identifica, visceralmente, com o discurso do presidente que considera Brilhante Ustra uma inspiração e que rompe diariamente com o pacto civilizatório, propondo, entre outras barbaridades literais, o fim do "politicamente correto".


Para esses muitos auto intitulados "cidadãos de bem", a vida humana é menos importante do que sua propriedade privada, ainda que essa propriedade seja somente um smartphone usado comprado na OLX. O inimigo maior, mesmo que eventualmente tenha a sua cor de pele e pertença à sua classe sócio econômica, é o ladrão de celular e o batedor de carteira. Foi o discurso de combate irrestrito a essa violência urbana um dos fortes argumentos a unir os pobres e a classe média em torno do neofascismo (além do antipetismo, do combate à corrupção e do conservadorismo neopentecostal que hoje sabemos ser componentes fortíssimos da sociedade brasileira). Já para os ricos, o Bozo é só uma contingência para a implementação da agenda neoliberal e do sonho do "estado zero".


Digo tudo isso, pra falar um pouco de dois filmes recentes: Bacurau e A odisseia dos tontos.


Quando assisti a Bacurau, no UCI do New York City Center, em uma sessão lotada de sábado à noite, saí com o coração destroçado diante da reação da platéia. Cada morte era comemorada com gritos de apoio: "isso aqui é Brasil, porra!". Imaginava que ao meu lado, no cinema escuro, estavam todos vestidos com camisas da seleção brasileira e que no fim do filme iriam cantarolar a música do Ayrton Senna.


Minha experiência vendo Bacurau, nesse sentido, me fez reviver a de quando assisti ao Tropa de Elite 1 e me assustei com as pessoas gritando "põe no saco" e "pede pra sair", enlouquecidas e possuídas pelo animal que lhes povoa o íntimo. Vi em um documentário que boa parte dos jovens profundamente agressivos que entraram pra PM do Rio de Janeiro logo depois da febre em que o filme se tornou chegava à corporação com a gana de torturar e de matar, tal como os parceiros do capitão Nascimento.


Claro que Bacurau não se resume à violência dirigida aos vilões americanos pelos heróis sertanejos, mas depois que assisti à Odisseia dos tontos, fiquei pensando no como os dois filmes, embora, em última análise, discutam a luta dos "tontos" contra os "filhos da puta", escolhem caminhos diferentes para isso.


A Odisseia dos tontos propõe a busca pela justiça, através da transgressão da lei, tanto quanto Bacurau.


Em Bacurau, a ausência do estado e o abandono total dos moradores à sua própria sorte, leva à união das forças populares, tomando como exemplo os cangaceiros mal compreendidos pela história oficial. Matar, impiedosamente, os inimigos americanos constituiu-se na mais emblemática ação revolucionária do povo do vilarejo, gerando lá na sala de cinema da Barra da Tijuca a reação que citei. Ali era matar ou morrer.


Em A odisseia dos tontos, também a transgressão da lei é a atitude escolhida para que o grupo de "tontos" promova justiça - "justiça, não vingança", como reforça Antônio, o personagem anarquista da trama. Um grupo de homens de meia idade e de velhos se une para roubar os dólares anteriormente roubados do povo por Mazin, o representante dos "filhos da puta", detentores do capital e dos meios de produção. A odisseia a que o título faz menção diz respeito à sucessão de transgressões à lei que o grupo comete para fazer justiça. Uma lástima, como constata Antônio, que Mazin não vá saber que foram os "tontos", e não outro "filho da puta" qualquer, que lhe roubaram a fortuna.


Queria agora voltar a um ponto que mencionei lá no início: o desprezo pela vida humana em favor da propriedade privada que norteia o juízo de valores de boa parte da população, sobretudo dos bolsomínions. Claro que esse desprezo não é o mesmo independente da vida em questão. Afinal, bandido bom é bandido morto. E bandido, pra essa gente, é o preto pobre -- além do Lula, é claro, o nove dedos, bandido-mor desse país afundado no mar da corrupção.


Em Bacurau, são mortos, com requintes de crueldade e de realismo, brancos, louros, ricos, americanos, e não sertanejos, favelados, pretos e pobres, como ocorre todos os dias no país. Disso não se pode esquecer. Mas a justiça feita apresentou uma pena que recaiu sobre a vida humana.


Em A odisseia dos tontos, diferentemente, a pena para Mazin, metonímia do estado argentino responsável pelo "curralito", dos bancos, do sistema financeiro, enfim, do capitalismo em seu sentido estrito, foi a de perder justamente aquilo que mais prezava: a concentração da riqueza. O dinheiro roubado de quem roubou o dinheiro do povo vai, simbolicamente, financiar a organização de uma cooperativa de trabalhadores.


Talvez, a cena que melhor demonstre a diferença de caminhos escolhidos pelos dois filmes seja a cena final que se passa depois de parte dos créditos, em A odisseia dos tontos. Antônio, o anarquista borracheiro que guardou durante todo o filme uma barra de ferro para matar Mazin quando ele aparecesse para consertar o pneu furado, na hora que o vê entrar em sua borracharia, em vez de matá-lo, esfrega bem a bomba do seu chimarrão no pênis e oferece ao "filho da puta", que chupa, deliciosamente, o mate.


Pra terminar, não quero que esse texto deixe a impressão de que defendo uma moral cristã, de bons moços, incapazes de matar ou de morrer por uma causa. Na verdade, o que queria mesmo é que o Brasil que resta inteligente nesses tempos fascistas do Bozo, para quem o erro da ditadura foi torturar, em vez de matar, do império das milícias cariocas, do assassinato da Marielle e do Anderson, do deboche diário das polícias em relação aos direitos humanos, das tragédias naturalizadas das Agathas, da chacina oficial de Paraisópolis, o Brasil deprimido diante do inominável pudesse dizer que revolucionária mesmo é a justa distribuição da riqueza e não cabeças estouradas por bacamartes.

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