• Língua Livre

Embates sobre a 'língua do X' e pornografia inspiracional às avessas

Por: Acauã Pozino*


Há já um tempo, vem-se discutindo bastante a usabilidade de linguagem neutra para abarcar a flexibilização das definições de gênero, tão necessárias e urgentes. A primeira iniciativa desse tipo a adquirir protagonismo no debate público foi a desinência (terminação marcadora de gênero em substantivos e verbos) X, pensada inicialmente para o plural de palavras que se referissem a um coletivo misto, sem discriminar, por exemplo, alunos de alunas – substituindo ambos por alunxs. Apesar de muito elogiada, tal desinência sofreu (e sofre) muita resistência – inclusive dentro de setores autodeclarados progressistas. Apesar de que a evolução de uma ideia se dá, em grande medida, pelas críticas que recebe; algumas linhas de argumentação têm um caráter bastante mais problemático que outras. Tratarei aqui de uma linha em específico.


Muitas pessoas, bem-intencionadas inclusive, levanta(ra)m o argumento de que a desinência neutra X seria um problema para nós, pessoas com deficiência visual, uma vez que implicaria um problema para os sistemas de conversão de texto em voz (TTSs) ler as palavras escritas dessa forma. Ora, uma pessoa vidente experimenta tanto estranhamento ao ler “alunxs” quanto nós cegos ao ouvir “álunkses”! A reeducação que um vidente pode se disciplinar a fazer para ler “alunxs” é a mesma a que um cego pode se submeter para ler “álunkse”". Muitos dos que seguem essa linha argumentativa basearam suas militâncias em inferências isentas de consulta a quaisquer pessoas com deficiência (PCDs).


A partir dessa análise, verifica-se algo que, para nós PCDs, é frustrantemente corriqueiro: a forma como, apelando para o peso negativo que a deficiência traz no imaginário coletivo, instrumentaliza-se nossa condição a fim de validar atitudes que, de outro modo, seriam grosseiras, opressivas, etc. A este tipo de manobras chamamos “pornografia inspiracional”, embora nesse caso ela se encontre de uma maneira um tanto torcida.


Pornografia inspiracional é uma prática – muito comum em veículos de grande influência social – na qual corpos com deficiência são expostos em posição de protagonismo, a fim de gerar nos indivíduos uma carga libidinal extra – a famosa injeção de estímulo. Em outras palavras: “Se um cadeirante consegue passar num concurso público, o que iria me impedir de ascender na empresa em que trabalho?” É uma estratégia que trabalha dentro de um universo tipicamente liberal burguês de inversões de valores, paralelos falaciosos e, principalmente, que ignora qualquer questão relacionada à estrutura e às contradições capitalistas.


Essa é uma definição clássica de pornografia inspiracional. Nesse caso, essa estratégia se mostra de maneira um tanto truncada ou até, alguns diriam, reversa: “Estão tirando as desinências de gênero vocálicas, os leitores de tela não conseguirão interpretar, estão privando os pobres dos cegos da única coisa que lhes é permitida ter, a língua!...”


Como diria um perfil bastante conhecido no Twitter: Apenas... parem.


Argumentar dessa maneira prejudica a nós cegos, uma vez que reforça as estruturas que nos oprimem; prejudica a comunidade não-binária, pela qual também falo, uma vez que desvia o foco da discussão principal que é incluir coletivos mistos e pessoas não-binárias na língua e, no fim das contas, prejudica o próprio debate, de maneira geral. Enquanto, no debate, não entrar a opressão capacitista burguesa, continuará havendo contradições incômodas em todos esses debates.


“Mas não há problemas no X?” Sim, há problemas. Por ser uma consoante, o X não se encaixa na estrutura fonética inerente à língua portuguesa, nossa língua materna. Na escrita, no primeiro momento, não há grande contradição aparente. Contudo, num país com um problema histórico de analfabetismo, pensar a língua unicamente a partir da escrita é ingênuo, senão irresponsável. Assim sendo, é preciso pensar outras formas de neutralizar os substantivos que case com as estruturas fonéticas e fonológicas da língua. Um exemplo, que tem ganhado agradável protagonismo, é o de utilizar uma terceira vogal para demarcar o gênero neutro – ele(s)/ela(s)/elo(s), todo(s)/toda(s)/tode(s) –, adequando assim às nossas estruturas de fala. Aliás, desde já ressalto que essa forma é perfeitamente lida pelos softwares assistivos a nós destinados.


No entanto, não é objetivo desse artigo discorrer sobre as melhores formas de se designar o gênero neutro, e sim afirmar contundentemente o seguinte: o capacitismo estrutural, principalmente aquele cotidianamente manifestado dentro de espaços autodeclarados antiopressão. Antes de tentar se autopromover nas interações de alguma postagem valendo-se das ferramentas dos cegos, consulte um; antes de nos utilizar para dar mais efeito a algum argumento, converse conosco. Se é para marcar a posição do recalque binarista, favor deixar as pessoas com deficiências fora disso. E, se a intenção é boa, favor seguir as recomendações da cima e lembrar sempre o documento da Conferência das Nações Unidas para a Acessibilidade: “Nothing about us without us” (Nada sobre nós sem nós).


*Acauã Pozino é articulista do site Língua Livre, ex-aluno do Colégio Pedro II e estudante de Letras: Português-Espanhol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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