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Beijos gays

Por Liliane Machado


O calor esteve inclemente no primeiro dia de 2020. Para poupar energia elétrica, já que é grave a crise, fomos nos refugiar em um shopping de lojas fechadas e usufruir do ar condicionado de graça. Aplacado o calor, faltava aplacar o tédio do feriado e resolvemos, então, assistir a um filme. Entre Cats e Minha mãe é uma peça 3 - escolha bem difícil - ficamos com o segundo. Eu disse: vamos prestigiar o cinema brasileiro popular, né!


Esse negócio de produtos artísticos populares é engraçado. Quando eu era bem jovem, circulavam nas bancas de jornais uns romances melosos, porém eróticos, que eram devorados pelas meninas de 13 anos cheias de hormônios. Embora possam duvidar, nunca li nenhum deles, porque torcia o nariz para aquela literatura de segunda classe, que alienava as mocinhas casadoiras. Depois, quando entrei pra faculdade de letras, ouvi minha professora Eliana Bueno, de Teoria da Literatura, defender a leitura dos tais livros com o argumento de que é sempre melhor ler do que não ler.


Entrei no cinema pensando na Eliana Bueno, porque o público era grande, e na polêmica do beijo gay que não iria acontecer. Sentamos eu e o Pedro nos píncaros da última fileira, o que nos dava uma visão privilegiada da sala de exibição e das pessoas que iam ocupando seus assentos. Caraca, que gangue! Era o Pedro vendo uma família classe média inteira entrando - mamãe, papai, filhinhos, titias, titios e vovó - e sentando na fileira à nossa frente. Saíram das comemorações do Réveillon direto para assistir ao filme do Paulo Gustavo, que aliás está em cartaz em, nada mais, nada menos, do que 99 salas de cinema da cidade do Rio de Janeiro, do Cine Araújo Jardim Guadalupe ao Espaço Itaú de Botafogo, passando pelo Village Mall.


As luzes se apagaram e o filme começou, com Dona Hermínia na feira, tentando ocupar seu tempo ocioso, porque a trama se desenrola a partir da síndrome do ninho vazio. Embora ache que não precise contar o enredo, vou dar umas pinceladas, pois pode ser que algumas pessoas não gastem seu dinheiro com o cinema popular. Dona Hermínia aparece em cena deprimida com a saída de casa de seus filhos - Juliano e Marcelina - e a história vai se construindo com a reorganização familiar, provocada pela gravidez da filha e pelo casamento do filho gay.


O ritmo do filme acompanha a fala acelerada da Dona Hermínia e não foi possível contar as inumeráveis piadas para todos os gostos que não deixavam tempo para respiro. O público se escangalhava de rir, inclusive eu e o Pedro.


Numa comparação ideal, a família da frente estava se divertindo com um filme que retratava um padrão familiar bem diverso do seu. Dona Hermínia é uma mulher divorciada, suas irmãs tiveram experiências lésbicas, uma delas é usuária de maconha, Marcelina engravida do namorado hippie no primeiro encontro e Juliano vai se casar com seu namorado. Dona Hermínia, embora encarne o estereótipo da mãe latina possessiva, paradoxalmente também corrompe esse clichê, com seu vocabulário recheado de palavrões e a fleuma com que convive com a diversidade de comportamentos dos membros da sua família.


Em setembro, quando saiu a notícia de que não haveria beijo gay, li um tuíte que dizia que o Paulo Gustavo estava fazendo um filme para héteros pensarem que não são homofóbicos. Li também a resposta de que a sociedade brasileira é muito conservadora e o filme se pretendia um blockbuster. Vou te dizer que fiquei torcendo pra acontecer o beijo gay na cena do casamento, mas não teve, não. Me lembrei do primeiro beijo gay da televisão brasileira entre o Félix e o Niko, em 2013, na novela do Walcyr Carrasco. Félix é até hoje, sete anos depois, um dos personagens de novela mais popular e recordista de memes na internet, ao lado da Nazaré e da própria Dona Hermínia. Mas não teve beijo gay dessa vez, não, ainda que o casamento do Juliano com seu namorado tenha acontecido com a naturalidade dos personagens que consideram o amor o único ingrediente necessário pra a constituição familiar.


No final, dois elementos me chamaram a atenção. O primeiro me levou direto pro atentado terrorista à produtora do Porta dos Fundos. Dona Hermínia, na noite de Natal, começa a rezar e embaralha propositalmente o Pai Nosso na Ave Maria, fazendo piada com os símbolos católicos maiores, enquanto o público ria com a inocência dos passarinhos.


Depois, na hora dos créditos, para quem ainda não tinha entendido que o filme defende francamente as relações homoafetivas e as famílias cuja organização extrapola a tradicional, surgem vídeos e fotos de Paulo Gustavo com seu companheiro e com seus dois filhos, misturando ficção com realidade e arrancando lágrimas da vovó que sentava na fileira da frente.


Minha mãe é uma peça 3 é de fato um blockbuster, produzido por gigantes como a Downtown filmes, a Universal Pictures, a Paramount Pictures, oTelecine e a Globo Filmes. E será certamente visto por centenas de milhares de espectadores - muitos deles votaram no Bozo, vestem meninas de rosa e meninos de azul, concordaram com o Crivella quando ele recolheu as HQs na Bienal do livro, acreditam em cura gay e se escandalizaram com o episódio de Natal do Porta dos Fundos. Por isso, parafraseando a Eliana Bueno, mesmo sem beijo gay, é muito melhor assistir do que não assistir.

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