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Artes: visuais?

Por Acauã Pozino*, com colaborações de Rodrigo Hipólito e equipe do Não Pod Tocar / Nota Manuscrita


A humanidade, desde as mais remotas datas registradas, se expressa através de imagens – gravuras rupestres, hieróglifos...Isso sem falar dos sistemas de escrita não ocidentais, como os kanjis sino-japoneses, nos quais o signo em si mesmo já carrega todo um paradigma. Ao longo dos séculos, de diferentes formas, as civilizações desenvolveram e sofisticaram sua maneira de dispor e apresentar essas imagens, configurando o que chamamos de artes visuais ou artes plásticas.


As artes chamadas visuais ou plásticas compreendem uma gama de expressões artísticas que se dão, a princípio, através de elementos apreensíveis pela visão – cores e formas. No entanto, embora se trate, como apontado, de um grupo específico de expressões artísticas, o processo histórico da luta de classes no ocidente construiu uma série de consensos a esse respeito, sobre os quais cabe alguma problematização. O primeiro deles é a sinonimização de arte e artes plásticas que, embora já bastante diluída – pelos interesses da própria indústria cultural, inclusive – ainda se encontra presente no imaginário coletivo.


Essa sinonimização é resultado de uma hierarquização de linguagens que está diretamente relacionada ao processo da luta de classes e condicionada a uma determinada leitura da realidade. A arte foi, durante muito tempo, restrita ao espaço das igrejas e grandes catedrais, comumente em posições nas quais apenas se lhes podia contemplar, de longe, tal qual a Deus. Essa relação com a obra de arte persistiu durante um grande período de tempo, vindo a ser questionada apenas pelos modernismos ao longo do século XX. Somem-se a isso outros elementos da cultura euro-ocidental, frutos de uma leitura atravessada de Platão: a subvalorização do físico, do sensível, do que toca a pele dos indivíduos e a paralela valorização daquilo que está, em tese, mais próximo do plano das ideias, ao que se associou a visão – um sentido distanciado, sem contato direto, pelo menos a princípio. Desse processo resultou a instituição, na ideologia dominante, de que a arte visualmente rica e sofisticada seria aquilo que está mais próximo da ideia primordial de arte. Essa percepção, surgida no final do século XVIII pela mão de pensadores do pós-renascimento, tornou-se hegemônica no mundo dominado pelo imperialismo, pela sua conveniência para minar os processos independentistas latinoamericanos. Sabedora do poder que tem a arte de insuflar as massas em um determinado sentido, a ideia de que a arte deveria ser apenas contemplada a distância serviu muito bem para apacentar a periferia do capital no final do século XVIII e durante todo o século XIX.


Cabe problematizar, também, a forma com que se lida com a construção e a apreensão de imagens. Talvez, pelo mesmo processo que leva a sinonimizar arte e artes visuais, e como resultado da própria organização infraestrutural dos espaços sociais,o sentido da visão possui, no imaginário coletivo – um status privilegiado na construção e apreensão de obras de arte, ou seja, entende-se que a visão é a forma mais eficaz – quando não a única – de apreender a realidade da criação artística, de tomar conhecimento dela. Contudo, todos os sentidos podem ser – e são, ainda que despercebidamente – apreensores da realidade. E, como a nossa relação com a realidade se dá essencialmente por meio de signos, qualquer dado apreendido da realidade, pelo sentido que for, pode ser associado a um conjunto de signos e formar uma imagem. Por exemplo:o “VW” de “Volkswagen” seriam apenas um VW qualquer se não lhe atribuíssemos o signo “Volkswagen” e, mais ainda, poderiam ser apenas linhas confusas em meio à lataria). Porque a imagem é formada na consciência; a imagem é o produto da percepção dos sentidos somada ao repertório de signos, valores, situações que estejam associados ao que foi apreendido. Então, se pensarmos em visão como construção e apreensão de imagens, ora, toda arte é visual. Todavia, como tudo mais na sociedade burguesa, apenas um tipo de visão é validado. Consequentemente, outros modos de apreender imagens, outras “visualidades” são dadas como insuficientes, estendendo-se esse rótulo àqueles indivíduos que não apreendem imagens pela via padrão, tida como normal; assim nasce o capacitismo e, nesse caso específico, a ideia de que pessoas cegas não possuem meios de apreciar um quadro ou uma instalação, que pessoas surdas não consomem música, etc.


Tracei todo esse caminho para falar de minha relação pessoal com as artes visuais (ou pictográficas, pictóricas...). Desde pequeno me interessei por desenho. Cresci já sem o funcionamento dos olhos e, à revelia disso, sempre fui estimulado a desenhar, uma vez percebidos meus gostos. Também nunca me foram omitidos detalhes estéticos de objetos e lugares, ao contrário do que se costuma fazer com muitas pessoas cegas. Esse conjunto de circunstâncias faz com que algumas pessoas se surpreendam com alguns comentários que faço, como a respeito da beleza de determinada roupa ou pessoa – desde que anteriormente descritos, nesse caso. Percebo que há uma expectativa de que o cego não possua senso estético; e essa expectativa decorre de todo o processo que comentei acima: luta de classes, concepção de um tipo específico de organização infraestrutural que privilegia o apreensível pelos olhos, demérito da sensibilidade física, etc.


Falando especificamente do campo da arte, estive pensando sobre a forma como ela chega até mim – especialmente as artes plásticas – e acredito que possa render algumas reflexões interessantes. Tomemos como um exemplo um quadro. Eis uma obra de arte inteiramente pensada para ser apreendida por meio dos olhos. Assim, para que eu tome conhecimento do conteúdo de um quadro, é necessário que me sejam descritos os elementos da composição pictórica da tela. No entanto, como se trata de uma obra pictográfica, ou seja, informações que se transmitem através da interação entre o aparelho óptico e a luz, quem está em diálogo, digamos, direto com a obra, é a pessoa que a está descrevendo para mim. O discurso dessa pessoa será, já então, resultante desta primeira interação entre descritor e obra, o que implica uma presença inexorável de subjetividade na descrição fornecida, por mínima que seja, uma vez que não há discursos absolutamente neutros.


Em seguida, o discurso de quem descreve será recebido por mim e confrontado com meu próprio discurso interior, meu repertório de capital cultural, o conhecimento que tenha do autor e período respectivos, e desse processo resultará um terceiro discurso e uma segunda relação com a obra, temperada pela voz do autor da tela e pela voz de quem me descreveu a obra. Sem contar as posteriores descrições e posteriores comentários que me cheguem sobre a mesma produção.


Com essas reflexões, pretendo propor uma nova forma de interagir com a realidade; em especial com a arte, mas não só. Creio que a classe dominante, por ser mais conveniente, nos conduz a olhar para a realidade de forma fragmentada, sem considerar que tudo que nela existe se relaciona entre si. E é justamente essa relação que dá a cada componente da realidade o seu respectivo sentido. Algo que é, a princípio, apreensível pelos olhos pode ser apreendido de outra forma; o mesmo vale para todos os outros sentidos. Termino com uma frase de Afonso Romano de Santanna: “Tudo é texto, tudo é narração”.


P.S.: Sobre a hierarquização de linguagens, vale ressaltar que esse fenômeno sofre uma acentuação com agudez proporcional à sofisticação da sociedade burguesa, principalmente após o fenômeno do fordismo, tendo em vista a exigência cada vez maior de superespecialização que se inseriu no senso comum. Até os anos 30, qualquer estudo acadêmico acerca de uma determinada obra precisava começar por uma descrição detalhada da obra em questão.


P.S.2: Ainda sobre a hierarquia de linguagens, a maior prova de sua falsidade é o desfile de carnaval, no qual linguagem escrita, melódica, rítmica e visual se misturam formando um todo interdependente e indissociável.



*Acauã Pozino é articulista do site Língua Livre, ex-aluno do Colégio Pedro II e estudante de Letras: Português-Espanhol na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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