• Língua Livre

A marca da história no corpo das palavras

Por: Vivian Paixão*

O que há por trás da ortografia?

Muitas vezes, os estudantes de língua portuguesa têm dificuldade em aprender a ortografia, isto é, a maneira oficial de escrever as palavras. É comum ouvirmos dizer que “o português é uma língua muito difícil” ou que “deveriam simplificar a escrita” por conta da complexidade da ortografia. Essa complexidade, porém, não é gratuita. Muito mais do que representar os sons da fala, a escrita carrega em si a história de uma língua.


As palavras são como o nosso corpo, que nasce com determinadas características, herdadas de nossos pais e, ao longo da vida, vai acumulando uma série de marcas. Algumas delas, como tatuagens e cicatrizes, contam grandes histórias ou possuem fortes significados. Outras, como rugas e manchas de sol, são o sinais que os anos deixam lentamente em nossa pele. Da mesma forma, as palavras têm marcas que refletem sua origem e sua trajetória histórica – as letras e sinais que usamos para escrevê-las.


Na língua portuguesa, há mais de uma letra para representar o mesmo som (por exemplo, “x” ou “ch”; “s” ou “ç”; “g” ou “j”, etc.), assim como há letras mudas (por exemplo, o “h” no início de palavras). Essas e outras questões ortográficas têm a ver com a história de nossa língua, que começa a existir por volta do século XIII. Nessa altura, as principais influências eram o latim (base linguística), além de línguas germânicas e do árabe. Depois disso, ao longo dos séculos, somaram-se muitos outros contatos linguísticos, até chegar ao estágio atual da língua – que continua em constante renovação.


A origem latina do português explica a base de sua escrita alfabética, e também algumas curiosidades da sua ortografia. A letra “h”, por exemplo, que não tem som em português, é usada no início de palavras que, no latim, tinham um som aspirado (similar ao som do “h” em palavras inglesas como “house”) – é o caso da palavra homem, que vem do latim hominem. O mesmo vale para palavras do grego que tinham esse som e foram adaptadas para a grafia latina, como hippos (em grego clássico, ἵππος), que significa “cavalo” e deu origem a palavras como hipódromo (local para corrida de cavalos).


Outro caso interessante é o da letra “j”, a última letra a entrar no alfabeto latino. As palavras portuguesas escritas com “j” são, em geral, evoluções de palavras que tinham som de “i” no latim ou nas línguas germânicas. Exemplos são as palavras jogo, que vem do latim iocus, Janeiro, do latim Ianuarius, e mesmo o nome de Jesus, que tem sua origem no hebraico Yeshua.


Mesmo as palavras mais “jovens”, incorporadas há pouco tempo à língua portuguesa, também carregam a marca de suas origens na grafia. O novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde 2009, acrescenta as letras “k”, “w” e “y” ao alfabeto português. Isso foi necessário porque, atualmente, são muitas as palavras oriundas de outras línguas (principalmente do inglês) e amplamente utilizadas no português, como por exemplo kit ou show, além de abreviaturas como kg (quilograma) e palavras derivadas de nomes próprios como darwinismo (relativo a Charles Darwin, criador da teoria da evolução das espécies).


Estudar a ortografia, portanto, pode ser muito mais interessante do que simplesmente decorar em que contextos devemos usar determinada letra ou sinal gráfico. A forma de escrever as palavras revela muito sobre a formação e a evolução de uma língua. Assim, as questões de ortografia do português não devem ser vistas como um assunto “difícil”, mas sim como um aspecto encantador de nossa língua, pois refletem a riqueza de uma bela história de muitos séculos.


* Este texto foi originalmente publicado no Jornal Matadalan, 83. ed. (Díli, Timor-Leste, 18-24/mar/2015), e encontra-se aqui com pequenas adaptações.

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