• Língua Livre

A experiência do racismo pela ótica de uma pessoa cega

Atualizado: 10 de Out de 2019

Por Acauã Pozino*


Decidi escrever este artigo após constatar a existência de uma escassez, ou mesmo inexistência, de inclusão de pessoas com deficiência (no meu caso falando especificamente das pessoas com deficiência visual) nas discussões raciais, inclusive no momento de discorrer a respeito da semiótica que envolve atitudes e afirmações de cunho preconceituoso. Em outras palavras, não se pensa que uma pessoa cega seja capaz de incorrer nos "atos opressores nossos de cada dia". Neste artigo, tratarei especificamente do recorte de raça.


A exclusão das pessoas com deficiência mereceria, por si só, um artigo a seu respeito, pois o capacitismo é ainda, infelizmente, uma forma de opressão pouco abordada nos movimentos sociais e veículos alternativos de grande alcance, tornando essa discussão restrita aos ambientes ocupados por PCDs. No entanto, não me aprofundarei nesse tema, por ora.


Quando se fala de "pessoa cega" e "racismo", é quase automático que se pense: "Mas como, se raça é um conceito visual?" Efetivamente, como já foi amplamente discorrido por Oraty Nogueira, no Brasil vivemos o que se chama de preconceito racial de marca, isto é, as relações de poder referentes à raça estão, na nossa sociedade, pautadas em referências visuais: a cor da pele, grau de crespura do cabelo, etc., diferente da sociedade americana, onde vale a chamada "lei da gota de sangue": se seus avós vieram da Índia, você é indiano "and the story ends" (e ponto final).


No entanto, apesar dessa conceituação ser absolutamente válida, não se pode deixar de levar em conta as outras expressões do racismo, as tais "ações opressoras de cada dia". Ou, como gosto de chamar, a microfísica da opressão. Como bem sabemos, e como nossos irmãos negros cansam de nos recordar, há inúmeras outras formas de expressão do racismo, e de inferências discriminatórias de base racista. Por exemplo, a discriminação contra os ritmos tradicionalmente periféricos – o funk, o rap –, a atribuição de características negativas aos povos negros como propensão ao crime e/ou as drogas. Todas essas ações são derivadas do racismo; e nós, pessoas com deficiência visual, estamos constantemente expostos a todas essas formas de discriminação.


Já ouvi de muitos cegos frases como "com fulano eu não ando, ele é da Maré [complexo de favelas no Rio de Janeiro]". Também são recorrentes as frases como "nossa, fulan(o/a), seu cabelo é tão ruinzinho...". Também entre cegos, no caso meus conhecidos homens heterossexuais, reproduzindo padrões de beleza brancos, chegando ao ponto de dizer que "não fico com preta porque todas tem voz de homem" [sic].


Existe um conceito, na área da educação inclusiva e áreas de pesquisa confluentes, chamado Verbalismo. Esse conceito trata da prática do ensino por meio da descrição, isto é, da verbalização de informações visuais, estabelecendo assim uma significação no plano da linguagem para objetos e/ou situações que estejam, a princípio, fora do alcance da apreensão visual. Contudo, o Verbalismo serve para transmitir, além de descrições objetivas, também conceitos do senso comum visuocentrista (avaliação de mundo centrada na percepção visual), incluindo o racismo. Quanto mais cedo forem inseridos esses conceitos, mais entranhados estarão no entendimento de mundo da pessoa. E, se tratamos de um indivíduo que tenha adquirido a deficiência visual num estágio de maturidade onde esses conceitos do senso comum já estejam consolidados, ele/ela não deixará de utilizar inferências de base racista, machista, classista ou LGBTQFóbicas apenas por ter adquirido uma deficiência. Vale ressaltar, no entanto, que trato do cidadão médio. Todos esses fatores, que fazem de uma pessoa – com deficiência ou não – racista, podem ser amenizados ou anulados por meio de uma educação que não se baseie nesses ideários que mencionei.


Para resumir o que falei até agora, podemos colocar o seguinte: racismo é uma prática que se baseia em conceitos e esses conceitos estão plasmados na linguagem. Portanto, a marca visual à qual se refere Oraty Nogueira desempenha, no cômputo geral, um papel subalterno na difusão do racismo, sendo apenas um dentre vários referenciais que supostamente validam a discriminação. Logo, se é a linguagem o maior plano difusor desta e de outras práticas discriminatórias, nós, pessoas com deficiência visual, não estamos nem um pouco blindados contra isso. O cabelo crespo pode ser tocado, por exemplo.


Contudo, é necessário frisar também o seguinte: por estarmos dentro da estrutura, também somos suas vítimas. Não há nada mais democrático nessas terras ao sul do Río Bravo do que a marginalização e a opressão: tem pra todo mundo. Com isso me refiro a que nós, cegos, não só praticamos o racismo como também somos atingidos, por ele, e aí se encontram duas opressões: o capacitismo e o racismo.


Retiremos um exemplo, da tal microfísica da opressão: se uma pessoa com deficiência, de pele/traços caucasianos se aproxima de um ponto de ônibus ou de um sinal, a reação instintiva da maioria dos presentes será perguntar-lhe se precisa de ajuda, qual ônibus irá esperar, etc. Se uma pessoa cega não branca, principalmente se for negra, se aproxima desses mesmos locais, a reação instintiva da maioria dos presentes será se afastar, sair do caminho, por pensar que a intenção daquele indivíduo é pedir esmola ou algo semelhante.


Outro: numa primeira conversa, pessoas brancas com deficiência visual costumam ser associadas à advocacia ou à magistratura, quando lhes é perguntada sua profissão ou seu curso; psicologia também é frequente. Quanto às pessoas com deficiência negras, quando lhes é perguntada sua ocupação, majoritariamente são associados à música ou à vida religiosa protestante/evangélica. Isso sucede, principalmente, porque os espaços de formação superior ocupam, ainda, uma posição de elite dentro da sociedade, bem como aqueles que os frequentam. E a cor da elite, no Brasil, é branca. Não se pensa que um negro tenha condições de ingressar na universidade. Deveria, portanto, dedicar-se à música – profissão que, no imaginário popular, não demanda qualificação técnica – ou à vida religiosa – para obter de volta a visão ou conseguir projeção no espaço midiático reservado à cultura Gospel. Também aí entra a referência visual: os exemplos, expostos esporadicamente pela mídia, de PCDV’s (pessoas com deficiência visual) que tenham obtido sucesso profissional, quando brancos, são juízes e advogados. E no meio Gospel, ao menos no Rio de Janeiro – onde moro e circulo – cantores e pregadores cegos são constantemente exibidos pelas igrejas. Na época em que frequentei a igreja evangélica, havia uma grande pressão implícita para que nós cegos assumíssemos posições de visibilidade dentro da ritualística – e quase todos eram pessoas negras.


Vale lembrar que estes exemplos são retirados de relatos de conhecidos e da minha própria vivência; não há estatísticas oficiais a esse respeito, que eu tenha conhecimento. Concluo, pois, com um bordão muito repetido, ainda que às vezes com um tom um tanto quanto piegas: somos pessoas, como quaisquer outras. Assim sendo, sofremos opressões e estamos, sim, sujeitos a acabar por reproduzi-las, caso não nos empenhemos na nossa própria desconstrução.



*Acauã Pozino é ex-aluno do Colégio Pedro II e calouro de Letras da Uerj 2019/2.

489 visualizações
  • Ícone Facebook
  • Ícone Instagram
  • Ícone Twitter
  • Ícone Spotify
  • Ícone iTunes